terça-feira, 18 de janeiro de 2011

Vozes



Necessito de um escape para minha cabeça, algum tipo de válvula que, quando acionada, possa me esvaziar a mente... Mas, como não possuo nada do tipo, restam-me apenas as palavras, e é delas que farei uso.
Eis a minha pessoa em mais uma madrugada insone. Mas não se engane, caro leitor: não há silêncio.
Várias vozes me atormentam, vindas, creio eu, da minha memória. Algumas que escuto diariamente, outras que quase não recordo mais. Mas todas juntas, numa mistura louca que me embaralha os pensamentos. Quase todas clamam meu nome, nas mais díspares formas, de modo que me trazem à tona os momentos reais em que foram proferidas.
Dentre elas, há uma em especial. Esta se repete exaustivamente, como se me convidando a mergulhar nas suas profundezas. Não é sadio, porém, que eu aceite o seu convite tão tentador, pois as lembranças que lhe acompanham são tão maravilhosas que chega a ser doloroso o fato de terem partido.
Mas deixe-me ceder apenas mais uma vez...
O vento de abril é nossa única testemunha, e respiro fundo para esconder o acelerar do meu peito. Tão perto, tão avassaladoramente perto... Deita a cabeça no meu colo, e sinto meus dedos se enrolarem aos seus cabelos. Ambos sabemos que pertencemos um ao outro, mas nenhum de nós tem coragem de admitir. Passa-se o que me parece uma eternidade. De súbito, você levanta a cabeça, sorri e diz meu nome.
O vazio se contorce dentro de mim, trazendo-me à realidade. Cedi mais uma vez, e um arrepio de saudade percorre meu corpo. Doloroso, porém familiar.

A saudade vicia. E a lembrança de um amor também.


Paula Braga.

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Desabafo



Eu já não me importo com a tua crítica. Pode me chamar de boba, criança, ingênua, do que quiser; eu simplesmente não te dou ouvidos. Cansei de ser julgada, e agora vou gritar o meu interior pra quem quiser ouvir.
A quem me diz para não acreditar nas pessoas, que elas vão sempre me decepcionar, eu respondo: eu não consigo. Sou verdadeira até o último fio de cabelo, acabei me acostumando a isso, e prefiro enxergar o melhor de cada um.
A quem me diz para não perdoar, eu questiono: se orgulho não é da minha natureza, para que devo forçá-lo? Quando o arrependimento for verdadeiro, prefiro perdoar e dar uma segunda chance, pois ela pode acabar servindo também para mim.
E para quem me critica, eu digo: eu não me importo mais. Não vou fechar meu coração e virar uma pessoa amarga só porque a sociedade assim impõe. Quando eu amo, não tenho vergonha dizer. Faço o possível e o impossível pelos meus queridos, pois sem eles não sei viver. Não hesito em abraçar meus amigos toda vez que os vejo, nem deixo de dizer um ‘você é importante para mim’ sempre que quero. Quando brigo com alguém, vou atrás, não importando de quem é a culpa. Como já disse, orgulho não é meu forte.
Choro de saudade. Valorizo sorrisos. Sou apaixonada pelos meus amigos. Nada me faz mais feliz que um “eu te amo”. Meu coração é um livro aberto, e não me envergonho. Já perdi pessoas por isso, o que hoje não lamento. Apesar de tudo, sempre houve quem tivesse apreço pelo meu caráter, e são esses que merecem o meu carinho.
Faço minhas as palavras do grande Oswaldo Montenegro: “Porque metade de mim é amor, e a outra metade também”. Assumo quem sou na esperança de que outros se reconheçam nessas linhas, e que o mundo não se torne lar apenas de pessoas medíocres.

Paula Braga.

domingo, 14 de novembro de 2010

Despedida



A pior parte é, sem dúvida, a cicatrização. É perder lentamente a sua lembrança e ter consciência disso, mas nada poder fazer. Esforçar-me para recordar os nossos momentos juntos, nossas intimidades e confissões, em vez de eles simplesmente virem, sem aviso ou momento certo. Afinal, algo está morrendo em mim, e deixando a incerteza em seu lugar.
Eu me acostumei a, mesmo nas mais adversas circunstâncias, guardar esse sentimento como uma espécie de talismã. Até em meios às lágrimas e à dor, eu jamais duvidei do que sentia. O tempo, porém, está a levar-te. A jovem cicatriz mascara um passado calejado.
Parece mais fácil esquecer, friamente falando. Parece mais fácil fingir que não me importo e que você é apenas mais um. Mas não é! Não sentir mais o seu cheiro mesmo à distância nem recordar o som da sua gargalhada é mais doloroso que chorar de saudade. Ouvir as nossas músicas sem ver um vídeo passar em minha cabeça é mais preocupante que te lembrar em cada detalhe da minha rotina. E não mais imaginar você comigo me fez perceber que, por mais que eu queira, eu não vou conseguir te amar para sempre.
Não foi só você que mudou, mas minhas concepções também. Eu não imaginaria meu futuro sem ti, mas, ao mesmo tempo, eu já estava sobrevivendo sem você ao meu lado. E aprendi. Não queria, mas tenho de admitir: hoje você é apenas passado. Cada hora leva mais um pouco de ti, e o que fica é só saudade.

Paula Braga.