terça-feira, 31 de julho de 2012

Poesia Perdida


Acabou a poesia
Perdeu-se nos olhos de quem ria
E via
Com maestria
Um verso de desenrolar.

Acabou a poesia
Foi banida
Da vida
Dolorida
De quem desaprendeu a amar.

Acabou a poesia
Desfez o encanto
No pranto
De olhos fartos de chorar.

Acabou a poesia
Mas que desventura!
Perder a doçura
De saber versar.

Acabou a poesia
Acabou o combustível
Do meu embriagar.

Acabou a poesia
Acabou o sentir
Acabou o contar.

Acabou a poesia
Que me punha a cicatrizar. 

domingo, 10 de junho de 2012

Visitante


“A dor que dói mais habita além do que pode ser descrito em palavras. Pulsa dentro da pele em chamas, invisível até mesmo ao olhar mais atento. Hora é estrondo, hora é silêncio. Mas faz-se pior quando em sussurro suplicante, culpado, sedento por castigo. Sabendo que o merece. Sabendo que não há perdão para o malfeito feito.”

Estava eu rabiscando o papel à meia luz, sob pesado efeito de cafeína e tomada por uma culpa inefável, quando se deu. Três batidas na porta. Por hora, fracas. Com o estômago revirado, espiei pelo olho-mágico e me deparei com o olhar impiedoso do Destino. Afastei-me, temente, demente, sabendo o que aquilo queria dizer. Pude senti-lo respirando em lentas tragadas por trás daquele pedaço de madeira, um tanto mais lento que meu ofegar temeroso.
Sempre soube que viria, mas meu íntimo ansiava por, talvez, um esquecimento. Qualquer motivo para ter o tempo necessário para me recompor, quem sabe até me redimir. Mas era impiedoso aquele visitante, insistente nas batidas e na sentença. Não podendo mais ignorar o fardo, escancarei a porta de súbito, como que para encará-lo por inteiro de uma vez.
A ausência que senti a partir de então veio em rajadas frias, como o vento que invade a casa quando se abre a porta, desorganizando o que vê pela frente. Cartas nunca enviadas, textos nunca divulgados, tudo voando porta afora. Sequer tivera tempo de juntar os pedaços de mim mesma e enviar para que alguém cuidasse deles. O Destino viera antes. Uma foto outrora presa numa agenda pairou pela sala, antes de repousar aos meus pés. Alguém fora retratado enquanto me abraçava, sem preocupação, antes de tudo aquilo. Antes da crise. Antes da tempestade.
Tudo voltara a estar fora do lugar, pouco depois de eu conseguir pôr um pouco de ordem na casa. O visitante fora embora, deixando apenas caos ao meu redor. Eu fora avisada, mas escolhera relutar. Perdera. Encostei-me à parede mais próxima, em choque, permitindo uma lágrima gélida escorrer pelo contorno do meu queixo. Só me restava esperar o fim do hiato forçado, e manter-me sã até a volta das minhas primaveras particulares.
Como previsto, pouco depois, a Saudade chegou deslizando por entre xícaras quebradas e folhas reviradas, e sentou-se ao meu lado. Acomodou-me em seu abraço, enxugou-me a lágrima e me entregou o bilhete amarrotado que trazia no bolso:

“Quando tiveres a Saudade como companheira
E a fraqueza quiser lhe derrubar
Suas marcas também serão minhas
E eu lhe sussurrarei em pensamento:
‘Você não está sozinha nessa imensidão’.”

Paula Braga.

quinta-feira, 24 de maio de 2012

Felicidade Cotidiana


Um sorriso se desenha em meu rosto à sua presença. O quão feliz eu posso ser vivenciando coisas tão simples, porém tão significativas? A resposta correta é ‘infinitamente’, posto que tal presença tem feito os pequenos gestos tornarem minha rotina, outrora maçante, um tanto quanto repleta de singelas e discretas felicidades.
Sim, tenho sido mais feliz do que é socialmente verbalizável. Uma felicidade daquelas contidas, mas imensas, que se realiza em forma de bilhetes, abraços, brincadeiras. Aquela rotina que muitos têm, mas nem todos enxergam o valor. Digo porque vivi com essa visão embaçada, até que fui apresentada à linha tênue entre o puramente banal e o maravilhosamente cotidiano. E essa linha mostrou-se a mim na forma de uma pessoa.
Alguém que personificou muito do que eu nunca sentira.
Deixe-me ser mais clara, com o perdão do sentimentalismo: vale a pena abrir mão do desejável conforto subconsciente e aturar a si mesmo por horas a fio, tendo ao alcance da visão periférica aquele olhar cúmplice. Vale a pena encarar os desafios diários de quem está precisando crescer ‘na marra’, tendo aquele ombro amigo pronto pra te apoiar. Vale a pena enfrentar a si mesmo, em todo o seu inferno particular, sabendo que alguém ama e zela pelo que há de bom escondido. E, sobretudo, vale a pena doar-se a quem faz tanta coisa valer a pena.
Em suma, algo naquela personalidade, inexplicavelmente, prendeu-me em seu entorno. Destino? Sorte a minha ele estar a meu favor. O que posso afirmar com toda a certeza, diante de tudo que já foi dito e vivido, é que tenho sentido coisas boas demais para cogitar um final.

Paula Braga.