quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Poema na Estrada




 Cabeça pousada,
 Sopro no rosto,
 Mão no cabelo.

 Olhos cerrados,
 Ouvido apurado,
 Coração partido.

 Olho na estrada,
 Fone no ouvido,
 Mão no pulso.

 Lágrima no olho,
 Zumbido no ouvido,
 Mão na garganta.

 Até que ponto
 Duas mãos
 Salvam uma vida?

 Até que ponto
 Uma mão
 Pode tirá-la?


Paula Braga.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Bilhete ao Leitor


Tenho tido pensamentos quietinhos, o que não é do meu feitio. Mas dizem que quando muito se admira alguém, a tendência é refletir o que ela lhe emana. E, que surpresa, o que eu aprendi a espelhar: meu carinho aprendeu a ser assim, quietinho, mas sem diminuir.
Veja bem, caro leitor, se há espaço para identificação: a verdade é que nós somos o produto do que se vive com quem se ama. Não se trata de perder a essência ou o caráter (quando saudável, vale ressaltar), não se anula ou suprime, não se perde a identidade. O amor é positivamente capaz de lavar a alma de tantos vícios, que muitas vezes se acomodam por se acreditar serem natos. Lava-se a alma por tê-la despido para outrem, cuja alma lhe foi mostrada de volta.
Essa beleza íntima às vezes sequer é percebida, de tão sutil. É um fôlego a mais quando antes já se teria explodido; é um sincero pedido de desculpas; é um esforço a mais para devolver a admiração sentida. É pensar no outro antes de pensar em si, mas é também cuidar de si por ser tesouro para o outro.
Portanto, cá estou, com meu temperamento intempestivo, assegurando que a mudança é natural. Trata-se de alimentar e preservar algo mais valioso que todas as superficialidades. Toma-se como premissa aquilo que lhe tocou a alma e deixa-se que ele a enobreça. É tomar para si esse caminho de transcendência e querer fazer com que ele dure pela eternidade.

Paula Braga.

P.s.: "é que, vez ou outra na vida, a gente tem a sorte de encontrar alguém pra vida toda."

quinta-feira, 30 de maio de 2013

Doentio


Acordo doente de tristeza, corroída de dor no estômago. Dia de desnecessário despertar, envolto nesse tenso hiato que me inquieta os nervos e tortura o coração. Outra vez olho o celular, talvez a enésima, posto que tantas o fiz madrugada a dentro. O silêncio é também minha culpa, mas saberia eu o que falar? Saberia eu o que mentir, posto que a verdade parece assim tão horrível? Inferno, esse meu jeito errado de amar.
Doentio, de fato. Outra palavra sua melhor não poderia descrever. Encaro a parede vizinha à minha cama e desisto de forçar mais horas desse sono insone. “Loving you forever can't be wrong”. Tique-taque. Lana Del Rey. Horas e horas de Lana Del Rey embalando meu inferno mentalmente projetado e potencialmente perigoso. “Everytime I close my eyes it's like a dark paradise”. Minha tristeza é ainda mais doentia que qualquer outro fator que você possa acusar.
Então solta de vez a minha mão e me deixa quieta na minha inquietude. Meu corpo e minha mente doentes lhe enojam, eu sei. Enojam a mim também. Já não lhe pedi para desistir? “Be a good baby, do what I want”. Só não espere que exista cor nos meus olhos depois que a sua silhueta desaparecer de vista. Não me obrigue a ser feliz quando você se for. Quando você se for... Tique-taque. “I’ve got a war in my mind”. Desisto e me desarmo, o orgulho em frangalhos, querendo nada além do seu abrigo. Que você não solte a minha mão. Mas o que é a vida além desse eterno soltar de mãos? Eu sei que a sua se vai. Eu sinto. E enlouqueço ao sentir.
Tique-taque. A ausência não finda. Meu estômago dói. O rádio continua. “I’m tired of feeling like I’m fucking crazy”. Estranho como nós chegamos a pensar que eu tinha melhorado, não é? Mas cá estou, a mesma desvairada de sempre, que você se recusa a enxergar, publicamente jurando que “I will love you 'till the end of time”. Não tenho mais nada a perder, vergonha alguma a esconder, pudor nenhum ao falar. Afinal, quem eu mais deveria poupar da imensidão da verdade eu fiz questão de assustar. Mas eu espero que você um dia me perdoe por tudo isso, pois foi você que me manteve minimamente sã até agora. Minha cura. Meu remédio. Meu vício. Minha sanidade. Tique-taque. “Never let me go, just stay”.

Paula Braga.