Ela estava sentada na cama, com os pés apoiados no chão, a cabeça sustentada por uma das mãos (cujos dedos, feito garras, embrenhavam-se aos cabelos), e a outra sustentando uma frieza metálica. Coragem, coragem... Apertou os olhos e deixou escorrerem lágrimas que lhe contornaram timidamente a face.
Entranhou ainda mais fundo os dedos nos cabelos, trincou os dentes e suportou a dor. O ardor lhe subiu pelo antebraço, deixando o restante do corpo fora de foco. Não era tão ruim quanto parecia aos alheios, e a letargia forçada lhe adormecia levemente. Coragem... Seria mesmo fraqueza? Seria mesmo errado? Não teria ela o direito de se livrar daquela dor no peito como bem quisesse e fizesse?
Decidiu, porém, deixar-se levar pelo torpor que ia se intensificando e estirou seu corpo na cama. Tonta e cansada, ensaiou um gemido de angústia e desespero, e, pela primeira vez, teve medo de si mesma Afinal, como chegara àquele ponto? O que significava tudo aquilo? Em que espécie de monstro havia se transformado? Monstro de si e para si, alimentando-se de uma vagarosa autodestruição.
Num átimo, apagou. Nada fora do planejado. Jazia quieta, indefesa, entregue a um sono profundo e perturbado por pesadelos que ela, com sorte, não lembraria. Levantaria no dia seguinte um tanto abalada, um tanto lenta, mas levantaria com seu rotineiro sorriso-escudo. Encararia mais um dia de sol com a esperança que a noite demorasse a chegar, e carregaria exposto e escondido em si, respectivamente, um anjo alheio e um monstro particular.
Paula Braga.


