terça-feira, 7 de abril de 2015

Abraços, bolos e almas tocadas

“Não solta, não solta, não solta...”
Mas, enquanto pensava isso, eu mesma soltei.
Eu ainda elevo minha alma ao limite da pele quando te abraço, embora hoje comedida, como se fosse possível ultrapassar os cinco sentidos; a surpresa foi sentir a tua alma encostando na minha de volta. Recuei, tomada por uma familiaridade inusitada, como quem passa de súbito em frente à casa onde cresceu, seguida por um misto de nostalgia e curiosidade, fato comum de quando os meus olhos procuram os teus nesses novos tempos onde nós tomamos nitidamente dois cursos de vida, e que não fazemos ideia de como voltarão a se cruzar.
Você me parece hoje um mistério pintado pelo que tenho perdido dos teus detalhes cotidianos emoldurando formas que eu conheço tão a fundo. Mas, se meu bolo preferido me fosse dado com uma cobertura diferente, teria eu medo de provar? Perderia eu a chance de experimentar um novo ainda melhor, e assim aprender a buscar bolos diferentes que poderiam ser tão bons quanto? O seu mistério não me entristece mais, pelo contrário: ele me instiga a ponto de me fazer questionar todos os meus sabores.
E foi nessa busca que eu soltei o teu abraço, mesmo querendo ficar a vida inteira. Ainda é um bolo incrível, mas quantas coberturas diferentes se há por provar? Será que a velha, outrora preferida, adequar-se-ia aos meus novos gostos? E, sobretudo, será que esse bolo ainda pode mesmo ser para mim?
Quando eu senti a tua alma me tocando de volta eu obtive a resposta para esta última, mas foi pelas tantas outras que eu te soltei: para sentir por mim mesma a vontade de conhecer todos os sabores possíveis junto à certeza de que, no fundo, a essência do gosto preferido permanece imutável.

Paula Braga.

quarta-feira, 11 de março de 2015

O dia em que eu deixei Sainté

Segunda-feira, 9 de março de 2015.

“Mas por que Saint-Etienne?”
Eu nunca tinha sequer ouvido falar nessa cidadezinha nos Alpes franceses até saber que, em pouco mais de um mês, eu lá desembarcaria arrastando duas malas, vestindo uma cara completamente perdida e carregando um coração cheio de expectativas. 
Não, não fui eu que escolhi Sainté.
Foi ela quem me escolheu.
Quem já se sentiu verdadeiramente em casa desembarcando na Châteaucreux tem certeza que morou/mora na melhor cidade da França, com a (e justamente pela) família mais incrível que o CSF poderia nos permitir construir. Que me perdoem os outros, mas o meu bonde fez história nessa Europa.
Hoje, arrastando as malas por essas ruas, sozinha como no dia em que cheguei e mais uma vez caindo de cabeça na mudança de vida, eu não poderia me sentir mais grata por cada um dos 240 dias que eu vivi aqui com vocês, a nossa família, nesse pedacinho de eternidade que nós fizemos questão de escrever com tanta intensidade.
“Mas por que Saint-Etienne?”
Por quem me acolheu quando eu cheguei tão perdida.
Por quem largou a preguiça e foi beber na casa da “novata”.
Por quem topou saltar de 182m de altura.
Por quem se vestiu comigo do brega ao haloween.
Por quem teve a "brilhante" ideia de velejar sem vento depois de “alguns” vinhos.
Por quem me puxou da água quando essa ideia deu errado.
Por quem garantiu as melhores festas (sobretudo quem foi resolver com a polícia).
Por quem correu de lingerie nos corredores do Les Estudines.
Por quem colocou 12 despertadores pra eu não perder uma prova.
Por quem passou 3h comigo no hospital.
Por quem dividiu o chuveiro, o colchão, a escova de dente e a vida.
Por quem cozinhou pra mim, sobretudo doente.
Por quem cantou e dançou comigo.
Por quem compartilhou o vinho, a comida e tantas outras coisas.
Por quem adotou o colar do beijo pra vida.
Por quem andou no meu patinete.
Por quem beijou a Benga.
Por quem me beijou (rs).
Por quem rolou comigo na linha do trem.
Por quem me deu bronca.
Por quem me pôs pra dormir.
Por quem me arrancou da cama.
Por quem enxugou minhas (tantas) lágrimas.
Por quem chorou comigo.
E, sobretudo... Por quem tanto me fez sorrir.
“Mas por que Saint-Etienne?”
Talvez eu nunca saiba o porquê.
Mas eu sempre saberei por quem.

Com amor, e já tanta saudade,
Paula Braga.

ps: a vocês, que me mostraram que, quando você está destruída em mil pedaços, é possível fazer cada um deles amar como se fosse inteiro.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Poças de Lama

O barco deslizava com quase nenhum balanço na vaga das ondas daquele mar imoralmente azul. Desenhado no horizonte, o porto se sobrepunha às colinas cobertas de casinhas brancas iluminadas por aquele nascer do sol de verão, o mesmo que cobria aquele rosto que eu já vira ter tantas cores. Tivesse eu o dom do traço, teria feito bela arte com aquele perfil alaranjado, mais familiar que o meu próprio, emoldurando a infinidade daquele mar tão antigo e romantizado. E, ao finir a obra, chamá-la-ia “Felicidade”, pois aquele momento, só nosso e do Egeu, não poderia ser melhor nominado. Uma lástima que meus desenhos sejam sempre essa pilha de palavras trôpegas e cheias das tais metáforas.
Piso numa poça de lama gelada e, em meio segundo, apaga-se meu quadro mental. Minhas pernas parecem gelatina, sobretudo para vencer o vento outonal, mas sigo pé ante pé numa marcha contrariada, absolutamente sozinha naquelas ruas largas e seculares. Ruas de mão única. Como de um precipício, eu não poderia voltar.
Inferno. Não deveria eu já ter me habituado a esse estranho “dom” de saber quando vou perder alguém? Pouparia o choque. Poderíamos ir direto para a parte que as lágrimas finalmente conseguem sair, em correnteza incessante como a que estava por vir.
Mas por hora, à meia-luz nessas ruas de cheiro maçante, o choque me prende a esses fantasmas mais vívidos que a realidade insalubre à minha volta. Meu nome, chamado de uma maneira doce como ninguém jamais chamara. Aquele abraço infinito que eu sentia tocar a alma. A cabeça no colo com a mão no cabelo, nosso gesto de proteção. Os braços carinhosamente entrelaçados. E, sobretudo, o calor da presença nos incontáveis fragmentos de tempo que eu aprendi a ver com mais cor, mais cheiro, mais vida. Vida essa que se descobrira ainda melhor enquanto compartilhada.
O vento me balança o capuz e eu piso em outra poça de lama. A rua continua vazia enquanto a lua se esconde atrás de incontáveis nuvens grafite, chorosas e cheias de você.
Não é mais verão, afinal. Tampouco para nós.

Paula Braga.