segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Pele

O acaso sempre dava um jeito de pô-los novamente juntos. Assustadoramente iguais, procuravam-se quase que por reflexo. Uma mensagem aleatória, uma ligação espontânea, uma vontade qualquer eram o suficiente para colocá-los outra vez nos braços um do outro, sem prudência ou perspectiva.
Ele não disfarçava suas intenções, ela não o desencorajava. Ele mordia o lábio, ela não escondia o arrepio. Ele investia, ela não se esquivava. Longe dos olhares de censura, seguiam sua natureza humana como uma espécie de afronta à rotina, às convenções, aos relacionamentos comuns. Queriam-se sem se pertencerem. Tinham-se sem se cobrarem. Amavam-se sem se amarem.
Toda essa naturalidade, porém, tinha prazo de validade. Talvez ela se apaixonasse e fosse viver uma história de amor com um terceiro; talvez ele cansasse daquela incerteza; ou talvez eles simplesmente decidissem que passaram dos limites. O fato é que jamais saberiam previamente quando seria a última vez que se encontrariam, pois seus instintos estavam conectados, de modo que, quando a solidão apertasse, eles invariavelmente se buscariam sedentos de familiaridade.
Enquanto o “talvez” não os afastava, contudo, iam alimentando o que tinham sem sequer mencionar o futuro. Somente pele, vontade e uma pitada de malícia.

Paula Braga.



quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Monstro Particular


Ela estava sentada na cama, com os pés apoiados no chão, a cabeça sustentada por uma das mãos (cujos dedos, feito garras, embrenhavam-se aos cabelos), e a outra sustentando uma frieza metálica. Coragem, coragem... Apertou os olhos e deixou escorrerem lágrimas que lhe contornaram timidamente a face.
Entranhou ainda mais fundo os dedos nos cabelos, trincou os dentes e suportou a dor. O ardor lhe subiu pelo antebraço, deixando o restante do corpo fora de foco. Não era tão ruim quanto parecia aos alheios, e a letargia forçada lhe adormecia levemente. Coragem... Seria mesmo fraqueza? Seria mesmo errado? Não teria ela o direito de se livrar daquela dor no peito como bem quisesse e fizesse?
Decidiu, porém, deixar-se levar pelo torpor que ia se intensificando e estirou seu corpo na cama. Tonta e cansada, ensaiou um gemido de angústia e desespero, e, pela primeira vez, teve medo de si mesma Afinal, como chegara àquele ponto? O que significava tudo aquilo? Em que espécie de monstro havia se transformado? Monstro de si e para si, alimentando-se de uma vagarosa autodestruição.
Num átimo, apagou. Nada fora do planejado. Jazia quieta, indefesa, entregue a um sono profundo e perturbado por pesadelos que ela, com sorte, não lembraria. Levantaria no dia seguinte um tanto abalada, um tanto lenta, mas levantaria com seu rotineiro sorriso-escudo. Encararia mais um dia de sol com a esperança que a noite demorasse a chegar, e carregaria exposto e escondido em si, respectivamente, um anjo alheio e um monstro particular.


Paula Braga.

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Príncipe Encantado


Então ela bate o pé e decide que cansou de esperar por um príncipe encantado, daqueles que aparecem num cavalo branco trazendo consigo tudo aquilo que ela buscou em tantos outros. “Eles não existem”, repetiu para si mesma, para se convencer. É impossível, ninguém é perfeito...
Mas, quando parou para analisar a ultrapassada concepção de príncipe encantado, deparou-se com seu passado. Não, ele não era nem de longe encantado, mas de que importava? Quem precisava de um castelo quando ela o tinha bem ali, ao seu lado? Deu-se conta de que não era um príncipe que queria, e sim "ele", com todos os seus defeitos. Era mesmo necessário que ele provasse o seu amor defendo-a de um dragão, se no fim do dia era ele quem entendia as suas dores de “menina moderna”? Tinha seus encantos, isso era inegável, mas não deixava de ser um homem de carne e osso, e coração.
E ela o amava tanto... Amava o cabelo despenteado, a expressão brincalhona, o sorriso aberto. Amava como ele se interessava pela sua vida, mesmo que nos ínfimos detalhes, e como fazia questão de lhe dizer o que se passava na dele também. Amava as dúvidas acadêmicas, as ligações na madrugada, a aflição quando as coisas não iam bem. Amava até o modo como ficava distante quando passava por algum problema, numa tentativa de poupá-la, mesmo que fosse em vão, já que ela não o deixaria passar por aquilo sozinho.
No fim, ela amava todos os “defeitos” com tamanha intensidade, que achava impossível ter cogitado querer um príncipe encantado, com toda aquela perfeição. E foi então que se deu conta de que precisava querer um príncipe, sim, para não querer de novo o amado imperfeito que se fora.

Paula Braga.