quinta-feira, 1 de março de 2012

Sorte


Nada tão sublime quanto um afeto nascido sem causa aparente ou consequência premeditada. Aflora nas mais inesperadas situações, com uma frequência crescente, e quando menos se espera já se torna parte de si. Pois bem, essa sou eu sendo agraciada com tal sorte.
Sorte, essa é a palavra-chave. Sorte por ter uma personalidade tão propícia ao surgimento de intensas amizades. Sorte por encontrar pessoas dignas de incondicionalidade. E, principalmente, sorte por gostar de cuidar de quem está comigo.
Outra vez ela me presenteia. Trouxe-me mais uma pessoa singular, daquelas que valem a pena. Involuntariamente, eu a incluí na minha “zona de proteção”, reservada para aqueles que me tocam a alma. Não foi sem querer, porém, que a venho mantendo em tal lugar. Pelo contrário: faço questão de cuidar, mesmo que sem urgência ou publicidade. Zelar quietinha, através de pequenos gestos, só pelo prazer de fazer bem e me manter por perto.
O acaso, no entanto, tem lá seus desencontros. Será mesmo preciso uma separação prematura? Rogo que não. Mas se é a felicidade alheia que está em jogo, engolirei o contragosto e encararei o desencontro de destinos com uma saudade conformada. Aceitar e apoiar decisões, mesmo que me afastem, com a maturidade de quem quer ser guardada na lembrança por ter construído algo belo enquanto vingou.

Paula Braga.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Diálogo

Essa é uma história sobre anjos.


Ela a abraçou e uma atmosfera de emoção as circundou, quase tangível pelos leigos transeuntes. Tanta mágoa recente e tanta nostalgia, tudo intenso e vívido dentro daquele abraço. Poderia ser eterno, não? Se houvesse uma máquina do tempo, certamente seria aquele o instante para o qual ela voltaria quando, tempos depois, a saudade insistisse em atormentar.
- “Tá tudo bem?”
Era uma pergunta quase retórica, tendo em vista os recentes acontecimentos e a eminente separação. A que ponto haviam chegado, cogitando uma separação...! Anjos não podiam deixar seus protegidos; amigos de verdade não se abandonavam, e ela não podia simplesmente deixá-la. Mas lá estavam as duas, cheias de erros, mágoas e orgulho disfarçado. Vontade de permanecer naquele enlace até que tudo fosse esquecido, como um crime que prescreve. Porém não havia tempo que pudesse apagar, por si só, as novas mágoas; e mesmo que o fizesse, levaria consigo a vivacidade do carinho que guardavam uma pela outra.
Se ela estava bem? Era uma pergunta interessante.. Depois de todas as lágrimas, frustrações e decepções, seria fácil soltar um “não, não tô nada bem” simples e direto, e iniciar ali mesmo uma discussão. Mas, ao contrário do que fora previsto, ela realmente estava se sentindo bem ali, junto dela. Como era fácil confortar um coração desolado apenas com um olhar...  Pena que não bastava, naquele caso. Mesmo assim, ela acenou positivamente com a cabeça, um segundo após a pergunta, sem a mínima vontade de soltar-lhes os braços.
- “Tá tudo bem com a gente?”
E pela primeira vez, naquele dia, ela quis chorar. Quis descarregar todo o medo de perdê-la ali, em forma de lágrimas, para que fosse consolada e tudo acabasse bem. Mas não era simples assim, e envergonhou-se pelo impulso infantil.
A pergunta, porém, desencadeou um turbilhão de incômodos. Alguns adormecidos, como o medo de perdê-la; outros inéditos, como o ciúme. Ao invés de escorrer pelos olhos, no entando, essas inquietações refletiram num aceno de dúvida com os ombros, o que separou aquele abraço e as fez sorrir de desconforto.
Pausa dramática, conversa banal e despedida formal. Ela virou as costas e saiu com passos pesados, levando nos braços o calor alheio e no coração, a vontade de ficar.

Paula Braga.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Vigília

Eu costumava gostar de sorrir, hoje eu sorrio por costume. "Bola pra frente", todos disseram, e eu resolvi ouvir. Vez ou outra uma lágrima borra a minha máscara, mas quem nunca deixou vazar fraqueza pelos olhos? O fato é que me contentei com o que me foi dado (e tirado), e cá estou: firme e quase forte.
Deixe-me ser mais clara: já fui jovem, já acreditei nesses dramas amorosos tão sofridos quanto passageiros. Já vi filmes de amor agarrada a um pote de sorvete. Já sorri com uma mensagem matinal, e já acreditei piamente, mesmo tão nova, que pudesse ser feliz a vida inteira com o mesmo homem.
Mas foi-se, águas passadas. E não era de se esperar que aquela mocinha, tão ingênua quanto quebrada, seguisse em frente? Aquilo tudo a fez mulher, ou melhor, o tempo a fez mulher. Fez-me mulher.
Bebo um gole de café e pisco os olhos rapidamente. Vigília. Largo as palavras já escritas e contemplo o céu lá fora. Cinzento, esgueirando-se por entre dezenas de prédios. Diante de tal imensidão, um pensamento de menina me ocorre: ele está em algum lugar sob esse mesmo céu, com alguns pêlos a mais na barba e uma porção de novidades na vida. Teria ainda o mesmo brilho ímpar nos olhos, de garoto sonhador em pele de homem? Ou os percalços da vida o teriam feito tão seco quanto aquela que mais o amou?
Dei um sorriso para o meu próprio coração gelado, que de tão blindado não se manifestava sequer para a lembrança do “garoto de olhar sorridente”. Continuava batendo na mesma freqüência desde que fora desertado, e nenhum outro, nesses anos todos, conseguira despertá-lo. “Paciência”, eu dissera para mim mesma, depois de mais uma tentativa frustrada de acordá-lo, “e chega de magoar mais pessoas.”
Desviei os olhos do céu e voltei ao papel. Mais um gole de café e mais uma dúzia de pensamentos suplicando para tomar forma caligráfica. “Sossega”, ralhei, “certas coisas não merecem ser revividas, nem mesmo pela ponta de uma caneta.”
Assim sendo, respirei fundo e me preparei para contar a história de amor de um terceiro, ou um caso qualquer que fizera parte da minha ávida busca por alguém que me reaquecesse. Passado. Mas as pessoas gostavam de ler as desventuras alheias, e eu estava ali para entretê-las.
Um ponto final seguido por uma assinatura, e mais um texto finalizado. Apaguei a vela com um firme sopro, levantei-me e dei as costas para a janela. Precisava de inconsciência, cansara dos próprios pensamentos. Através da janela o céu continuava cinzento, e longe dali, um homem de olhos castanhos e ainda sonhadores encarou as nuvens com um quê de dúvida e saudade.

Paula Braga.