sexta-feira, 25 de novembro de 2016

Mar Aberto

Eu lembro a primeira vez que você me deixou sem ar.
Naquele balcão imundo apinhado de gente ébria eu me propunha, com pouco sucesso, a pedir uma água. Algo na embriaguez me fez lembrar de ti banalmente, nossos dois ou três olhares cruzados, e o pensamento foi interrompido pela tua chegada, casual e inesperada, ao meu lado, o ar leve e sorridente de tão pouco sóbrio.
Eu perdi o ar pela primeira vez ali
Sorrindo de volta pra ti
Porque ninguém deveria parecer assim tão bonito ao outro
(foi quando eu primeiro te quis).
Eu lembro, também, a segunda vez que você me deixou sem ar.
Foi quando eu acordei numa manhã seguinte repensando cada segundo da noite anterior e tinha você, um livreto da Lana Del Rey, um e outro São Braz... E então tínhamos nós e uma porção de lembranças que me roubaram o fôlego
Porque pela primeira vez
Num punhado de anos
Eu queria mais de alguém
(foi quando eu soube que te queria tanto).
Eu lembro, ainda, a terceira vez que você me deixou sem ar.
A famigerada noite de duas luas, de mar tranquilo, de estrela cadente e coração aquecido – até hoje não se sabe quantas vezes eu consegui perder o fôlego num intervalo de tempo tão curto. E, bem, você sabe o que eu pedi à tal estrela...
Eu pedi você
E tive
Eu só não pedi que nosso tempo fosse assim tão contado
(porque foi quando eu me apaixonei por ti).
Eu perdi o fôlego mais uma série de vezes, com cada sarda descoberta, com cada vez que eu pude segurar a tua mão em paz, com nossas despedidas mais ou menos dolorosas, com nossos retornos mais ou menos dramáticos, com os nossos planos de volta ao mundo (até pros EUA eu aceitei viajar, veja só), com nossos sonos compartilhados, com cada vez que eu planejei algo com tanto carinho pra ti
Mas que não pôde se realizar
Porque eu perdi o fôlego uma última vez
(e foi quando eu soube que tinha acabado).
Agora, presa nessa apneia, eu tento romper o torpor e entender como a gente chegou a esse ponto de tanto se sufocar. De não saber se separar, tampouco ficar junto. Ou como nós transformamos nossos abraços demorados em soluços interruptos, desesperados por não saber. Por não conseguir. Mas o que precisávamos conseguir, afinal? Onde esperávamos chegar, que acabou por sacrificar o nosso percurso antes tão... Simples? O que deixamos que nos esmagasse? E o que tanto deixamos por fazer, sentir e dizer? 
Eu me sinto tragada por todas essas perguntas com uma angústia muda e imóvel, e até certa exaustão, como quem morre afogado na praia depois de tanto nadar.
Bravo esforço
Mas onde chegamos mesmo?
Já que eu não sabia muito bem como me salvar
E o amor não é para os que prendem o fôlego e se jogam imprudentes em mar aberto, afinal.





Paula Braga.

terça-feira, 21 de junho de 2016

Noite de Duas Luas

Poucas vezes pode-se ver estrelas por entre as nuvens da cidade. Mas, àquela noite, eram muitas as teimosas que insistiam em se mostrar.
Noite peculiar, diz-se.
Noite de duas luas.
Uma delas escondia-se por entre o labirinto de prédios que, dali, pareciam alcançar o céu numa massa labiríntica avançando à beira-mar. Seu ciclo, tão certo, dizia-nos que era véspera de lua cheia, mas ainda assim ela insistia em se manter tímida no céu. Talvez para deixar brilhar a outra, a que repousava na areia, àquela noite cheia como há tanto o seu ciclo incerto não nos permitia ver.
Eu a via de perto, com os pés imersos na areia e os lábios adocicados por um vinho que eu faria questão de guardar a tampa. Mais real que o mar tranquilo ou as pessoas ao longe, um longe que parecia ainda mais uma vez que pra mim só existia ela. Eu podia vê-la, eu podia senti-la, eu podia deixar o seu calor me inundar a fundo como há tanto me fazia falta. Sentindo-a finalmente ali, parecia como se ela nunca tivesse se escondido. Fácil e natural. A dor, a dor genuína do meu coração aquecido pelo seu calor sempre foi  o meu vício mais prazeroso, e senti-la foi como voltar para casa depois de uma custosa viagem.
Deixei que me invadisse plena e me deleitei sem prudência. Eu a consumi sem sequer pensar em quando o ciclo incerto dessa lua iria levá-la dali, ou talvez por isso a consumi tanto. Ela jamais me permitira medo. Debruçada na areia, tomada pelo cheiro, o gosto, o toque, o calor, eu não poupei o turbilhão de sentimentos que ela, como nada mais, era capaz de aflorar. Não economizei os sentidos. Não refreei a energia. Traguei-a e me deixei dragar pelo que ela me trazia de melhor: algo dentro de mim mesma que só se via quando ela se mostrava plena, e eu nela me atirava sem pudor.
Algo que eu esquecera como era sentir.
Mas que, com aquela lua cheia outra vez,
Foi como se nunca tivesse apagado.


Paula Braga.

quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Do que eu não mereço

Desculpe, meu bem,
Mas não é a mim que você deve culpar.
Não por eu relutar em admitir minha culpa: você sabe o quanto eu normalmente sofro justo pelo excesso dela. Não por eu ser orgulhosa: você sabe que eu não costumo sê-lo sequer quando é necessário. Não por eu não ter lhe procurado, insistido, conversado. Não por eu não ter sido sincera (talvez até mais do que deveria). Não por ter faltado consideração com os seus pontos de vista. Não por eu não ter tentado lhe ouvir e entender. Não por eu não ter me esforçado para conviver com uma mágoa que você insistia em sustentar (e me torturar). Não por eu não ter lhe dado a receita de como lidar comigo (e, consequentemente, também a de como me magoar). Não por eu ter lhe escondido os meus sentimentos mais guardados, fossem eles bons ou ruins. Não por eu ter sido má companheira. Não por eu ter negado lhe dar o que quer que você, de mim, precisasse.
Até porque, você sabe, eu lhe dei muito
Eu lhe dei tudo o que eu podia
O que eu não posso, meu bem, é dar a mim uma culpa que é sua.
Agora a sua ausência dói em cada vez que eu já quis voltar atrás, que eu quis lhe abraçar, que eu quis acreditar, que eu quis deitar do seu lado e fingir que nada disso era verdade. Que a tempestade sequer começou, que era só um copo d’água. Que o seu silêncio era o certo, que a minha gritaria era escândalo. Que a sua liberdade vinha acima do meu sentir, e o erro era meu de lhe pedir para ter qualquer sensibilidade. Que a culpa era minha de causar isso e lhe afastar, que se fosse por você era só paz. A paz de poder sentir e fazer o que se acha certo para si (e somente para si). Mas é isso, viver para si? Pensar só em si? E, pra isso, passar por cima do sentir de quem não for... Você?
Todos os dedos já me foram apontados,
Isso não é novidade
Mas eu continuo na minha escolha.
E, estando feita a sua
Você pode me deixar
Você pode me deixar agora.

Paula Braga.

segunda-feira, 18 de janeiro de 2016

Essa história de Vênus em Áries

De início, havia a calma
Era o que ela queria
Era o que ela queria?
De súbito, não queria mais.

Deu-se então o caos
Era o que ela queria
Mas ela queria tanto
Que não soube como querer.

Foi esse não saber que lhe tirou
O que ela queria
E ela queria tanto
Que, ao final, já não queria mais.

(Ou não conseguia).
Paula Braga.

domingo, 14 de junho de 2015

Maré


À beira-mar do dia nascente, segurei a tua mão com os dedos firmemente entrelaçados à minha. Nossos pés afundavam na areia molhada enquanto a maré ia e vinha, fazendo a minha mão tremer na tua sempre que a água subia um pouco demais. Eu era inteira embriaguez e sabia que você me acompanhava, o que fazia daquele hiato entre a noite e o amanhecer um fragmento de tempo ainda mais nosso. Eu poderia dizer que o mar cheirava à inocência que a gente tinha entre si, mas eu prefiro guardar enraizado na lembrança algo que era tão real quanto transcendente.
“Um dia eu vou escrever sobre nós.”
Virei a minha cabeça pra ver a tua sobreposta ao rosado do horizonte só para encontrar os teus olhos desviando-se da maré para os meus, e ver você sorrindo com o canto dos lábios daquele jeito que só eu sabia te fazer sorrir. “Sério?” – seu tom de voz parecia ter mais emoção que surpresa. “Sim... Acho que algo singular como o nosso merece ser contado.”
Já se vai um tempo incontável desde que te fiz essa promessa, bem como uma sorte de sentimentos conflitantes e histórias a ser contadas. Mais do que o vai-e-vem do mar que apagou as nossas pegadas ao banhar a areia, páginas do nosso livro foram forçosamente rescritas por algo maior que o meu relato consciente.
Eu queria poder dizer nele que o sentimento de eternidade que eu tinha nos olhos ao pô-los em você ainda ferveria; que a solidão do mundo não pareceria mais tão assustadora enquanto eu visse esse mundo a dois; que ainda existiriam mil praias para se prometer, voluntariamente, aquilo que o coração realmente gostaria de cumprir. Eu queria poder dizer nele que você continuaria provando o que sequer precisava ser dito; que eu continuaria te dando o que sequer precisava ser pedido; que nós continuaríamos encontrando aquele mundo próprio – grande, doce e intimamente nosso. Eu queria pode dizer nele que as minhas mãos ainda procurariam as tuas; que os meus abraços achariam os teus; e que, sobretudo, a minha confiança na inocência se renovaria sempre que em ti pudesse pousar.
Se não fosse a ressaca do mar naquela praia onde fizeram-se tantas promessas, eu poderia escrever tudo isso com o mesmo calor de sentimentos que me bagunçavam e acalmavam em poesia e coração.
E, estranhamente, eu ainda posso.

Paula Braga.

domingo, 31 de maio de 2015

Hipnose

Eu vou te dar a minha casa, o meu barco, o meu carro, o meu patinete, a minha cama, o meu guarda-roupa, os meus livros. Eu vou te dar o meu sono, o meu riso, as minhas loucuras.  Eu vou te dar o meu dinheiro, o meu álcool, as minhas lembranças, as minhas crenças, os meus argumentos. Eu vou te dar a minha coleção de todas as coisas de cavalo, inclusive o pintado em minha pele. Eu vou te dar os meus textos. Eu vou te dar a minha história. Eu vou te dar o meu tempo. Eu vou te dar tudo o que tiver no meu coração e ao alcance dos meus pensamentos.
Eu vou te dar a mim inteira e não vou cobrar troco.
Eu vou te iludir com o meu beijo enquanto a minha mente passeia os dedos pela tua nuca. Eu vou te dar o meu silêncio, mas eu vou te dizer o que você quiser. Eu vou te ouvir como se o mundo estivesse mudo e te interromper quando a tua boca me fizer surda. Eu vou bater na tua porta com a tua comida preferida, ou eu posso cozinhar. Eu vou te fazer querer ir mais longe enquanto eu te chamo até lá. Eu vou inflar o teu ego e te fazer sentir a pessoa mais querida do mundo.
Eu vou te querer bem. Eu vou querer a ti.
Eu vou te dar tudo e não vou perder nada.
Vai ter você na minha casa, no meu barco, no meu carro, no meu patinete, na minha cama, no meu guarda-roupa, nos meus livros. Vai ter você em presença ou lembrança, no meu sono, no meu riso, nas minhas loucuras. Eu vou sentir os teus dedos contornarem o cavalo desenhado em minhas costelas. Eu vou te escrever textos, eu vou te contar nas minhas histórias, eu vou te ter em pensamento e coração.
Eu vou te ter para mim e não vou cobrar por isso.
Eu vou te marcar das melhores maneiras possíveis e te fazer esquecer o que é vida monótona. Eu vou pegar o teu tempo e transformar em meu enquanto a gente quiser, eu vou te tomar pra minha vida agora sem perguntar pelo depois. E se o depois vier, eu vou me dividir em pedaços pra te dar, mas não sem antes roubar alguns teus pra levar comigo.
Eu vou entrar na tua vida chutando a porta e sem pedir licença, eu vou elevar a voltagem ao máximo e mexer em todos os cômodos. E eu não vou sair sem te fazer dançar comigo na sala pelo tempo ou ritmo que for.

Paula Braga.

terça-feira, 19 de maio de 2015

Aquarela


Desvio o olho da folha em branco para o desenho colado na parede defronte. Nunca notara a suavidade daquele perfil até vê-lo traçado por tantas cores, e talvez eu sequer reconhecesse se não fosse pela pinta, a fiel acusadora. Suavidade esta trazida justamente pelas inúmeras cores que se alternam num compasso incompreensível e ao mesmo tempo tão bem conduzido. Alguém coordenara uma sinfonia de tons que, por sua pluralidade bem guiada, lapidara uma imagem dentro dela própria. O rosto é o mesmo, e ele poderia ser de qualquer uma daquelas cores, mas alguém quis e fez com que fossem tantas.
Esse é o meu rosto. Eu escolho todas.
Tenho guardados em mim milhões de tons e são eles que eu vejo tão claros naquela aquarela. Não passa do meu reflexo. Esse caleidoscópio te permite me ver esbaldar-me em riso e esvair-me em choro dentro de um punhado de horas, bem como conciliar extremos e criar laços. Sentir o outro e sentir-me o outro é o que figura essa aquarela e me arma contra a prisão interna de quem tem medo de repintar-se, porque eu sei que onde, quando ou com quem for, esse universo de cores e tons vai me ensinar a (re)ser.
Como alguém que coordenou aquela sucessão de traços coloridos e, pouco a pouco, deixou-me aparecer entre tais rabiscos, sou eu quem guia o bordado de tudo o que posso me tornar. Pinto-me pela coragem de perdoar, de voltar atrás, de desistir, e mais ainda: de insistir. De mudar, transmutar, transformar, metamorfosear. Adaptar. Vestir-me de um tecido espiritual de todas as cores me permite ser qualquer uma, ou todas elas.
É essa consciência do que posso ser que vai, pouco a pouco, amenizando esse medo do que posso perder, deixar de sentir, esquecer; que intimida esse temor constante do desconhecido, das certezas cuidadosamente construídas e do lugar-comum. Mas não se engane, afoito leitor: essa metamorfose constante não me torna fugaz. Eu sempre vou deixar um fragmento de mim enquanto levo um pedaço do que me foi oferecido, e o que me carrega é também o que me segura.
Porque as tantas cores me fazem infinita e atemporal dentro de mim mesma.

Paula Braga.

sábado, 2 de maio de 2015

Nota Sobre Caminhadas Silenciosas


Estava voltando sozinha para casa, o que virara fato comum. Aprendera a gostar da caminhada silenciosa do retorno, e agradecia silenciosamente a um GPS que funcionava em qualquer circunstância. Agora não estava mais tão frio, e era prazeroso o seu novo costume de caminhar pelas ruas à noite fugindo daquele caos que, por vezes, não lhe pertencia mais. Animava-lhe a ideia de chegar em casa, tomar um banho demorado, vestir o pijama e dormir bem. Os novos pequenos prazeres que descobrira ao aprender a se respeitar.
Achava que essa paz, que já buscara tantas vezes para a cura de suas loucuras particulares, vinha do mundo, do que ela conseguia absorver desse universo que, afinal, conspirava tanto para o seu bem (e disso ela não tinha do que reclamar). Essa paz libertadora que de tantos infernos a tinha livrado. Mas a verdadeira calmaria encontrava-se no fundo daquele coração que ela oferecia insistente a tantos, mas que pertencia sobretudo a ela. E era o que de melhor tinha.
Foi maravilhoso descobrir que não pertencia a ninguém mais do que a ela própria.
E foi o melhor presente que poderia ter-se dado.
Hoje, parece menos alegre; tremendo erro do espectador. Enxerga a felicidade de maneiras diferentes, e ainda assim transmite a sua alegria de dentro para fora – não mais o contrário. Ama ainda mais o mundo, mesmo que pareça numa voltagem menor. A alegria se multiplicou uma vez que boa parte pertence, agora, também a ela.

Paula Braga.

terça-feira, 14 de abril de 2015

1404

Já se vão três anos e eu não imaginaria, nos meus sonhos mais juvenis, que tanta coisa pudesse acontecer nesse meio tempo. Sobre nós e sobre mim.
Todas as pessoas que tenho conhecido, todos os lugares incríveis, todo pôr do sol contemplado que sempre lembrou e sempre vai lembrar você. Os nossos detalhes cotidianos e as nossas aventuras épicas, as viagens, as histórias para contar, as mesmas expressões nos mesmos momentos, os inúmeros pensamentos lidos. O atravessar de um estado que virou o atravessar de um país, cujo destino sempre valeu a pena. Todas as vezes que eu não precisei dizer para você saber, e ainda assim eu fazia questão.
O hamster (que não era hamster, afinal). O toblerone. O scrapbook. A concha. A pedrinha. O diamante negro. O pote de sorvete com o saco de doces. A sorte. O passarinho. 
Não tem mais você, mas ainda tem todas as músicas, todos os textos, todas as fotos, todas as lembranças, todas as histórias nas quais sempre tem um pouco de ti, nem que seja em ausência. Ainda tem o hoje, e todas as coisas que ficaram por dizer.
Ainda tem amor. E, enquanto ainda for eu, o meu amor não vai passar em branco.
Nem o hoje.
Então... feliz dia.

Paula Braga.

p.s.: “They offer the world just to have what we got, but I found the world in you. I found a world in you..”

terça-feira, 7 de abril de 2015

Abraços, bolos e almas tocadas

“Não solta, não solta, não solta...”
Mas, enquanto pensava isso, eu mesma soltei.
Eu ainda elevo minha alma ao limite da pele quando te abraço, embora hoje comedida, como se fosse possível ultrapassar os cinco sentidos; a surpresa foi sentir a tua alma encostando na minha de volta. Recuei, tomada por uma familiaridade inusitada, como quem passa de súbito em frente à casa onde cresceu, seguida por um misto de nostalgia e curiosidade, fato comum de quando os meus olhos procuram os teus nesses novos tempos onde nós tomamos nitidamente dois cursos de vida, e que não fazemos ideia de como voltarão a se cruzar.
Você me parece hoje um mistério pintado pelo que tenho perdido dos teus detalhes cotidianos emoldurando formas que eu conheço tão a fundo. Mas, se meu bolo preferido me fosse dado com uma cobertura diferente, teria eu medo de provar? Perderia eu a chance de experimentar um novo ainda melhor, e assim aprender a buscar bolos diferentes que poderiam ser tão bons quanto? O seu mistério não me entristece mais, pelo contrário: ele me instiga a ponto de me fazer questionar todos os meus sabores.
E foi nessa busca que eu soltei o teu abraço, mesmo querendo ficar a vida inteira. Ainda é um bolo incrível, mas quantas coberturas diferentes se há por provar? Será que a velha, outrora preferida, adequar-se-ia aos meus novos gostos? E, sobretudo, será que esse bolo ainda pode mesmo ser para mim?
Quando eu senti a tua alma me tocando de volta eu obtive a resposta para esta última, mas foi pelas tantas outras que eu te soltei: para sentir por mim mesma a vontade de conhecer todos os sabores possíveis junto à certeza de que, no fundo, a essência do gosto preferido permanece imutável.

Paula Braga.

quarta-feira, 11 de março de 2015

O dia em que eu deixei Sainté

Segunda-feira, 9 de março de 2015.

“Mas por que Saint-Etienne?”
Eu nunca tinha sequer ouvido falar nessa cidadezinha nos Alpes franceses até saber que, em pouco mais de um mês, eu lá desembarcaria arrastando duas malas, vestindo uma cara completamente perdida e carregando um coração cheio de expectativas. 
Não, não fui eu que escolhi Sainté.
Foi ela quem me escolheu.
Quem já se sentiu verdadeiramente em casa desembarcando na Châteaucreux tem certeza que morou/mora na melhor cidade da França, com a (e justamente pela) família mais incrível que o CSF poderia nos permitir construir. Que me perdoem os outros, mas o meu bonde fez história nessa Europa.
Hoje, arrastando as malas por essas ruas, sozinha como no dia em que cheguei e mais uma vez caindo de cabeça na mudança de vida, eu não poderia me sentir mais grata por cada um dos 240 dias que eu vivi aqui com vocês, a nossa família, nesse pedacinho de eternidade que nós fizemos questão de escrever com tanta intensidade.
“Mas por que Saint-Etienne?”
Por quem me acolheu quando eu cheguei tão perdida.
Por quem largou a preguiça e foi beber na casa da “novata”.
Por quem topou saltar de 182m de altura.
Por quem se vestiu comigo do brega ao haloween.
Por quem teve a "brilhante" ideia de velejar sem vento depois de “alguns” vinhos.
Por quem me puxou da água quando essa ideia deu errado.
Por quem garantiu as melhores festas (sobretudo quem foi resolver com a polícia).
Por quem correu de lingerie nos corredores do Les Estudines.
Por quem colocou 12 despertadores pra eu não perder uma prova.
Por quem passou 3h comigo no hospital.
Por quem dividiu o chuveiro, o colchão, a escova de dente e a vida.
Por quem cozinhou pra mim, sobretudo doente.
Por quem cantou e dançou comigo.
Por quem compartilhou o vinho, a comida e tantas outras coisas.
Por quem adotou o colar do beijo pra vida.
Por quem andou no meu patinete.
Por quem beijou a Benga.
Por quem me beijou (rs).
Por quem rolou comigo na linha do trem.
Por quem me deu bronca.
Por quem me pôs pra dormir.
Por quem me arrancou da cama.
Por quem enxugou minhas (tantas) lágrimas.
Por quem chorou comigo.
E, sobretudo... Por quem tanto me fez sorrir.
“Mas por que Saint-Etienne?”
Talvez eu nunca saiba o porquê.
Mas eu sempre saberei por quem.

Com amor, e já tanta saudade,
Paula Braga.

ps: a vocês, que me mostraram que, quando você está destruída em mil pedaços, é possível fazer cada um deles amar como se fosse inteiro.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Poças de Lama

O barco deslizava com quase nenhum balanço na vaga das ondas daquele mar imoralmente azul. Desenhado no horizonte, o porto se sobrepunha às colinas cobertas de casinhas brancas iluminadas por aquele nascer do sol de verão, o mesmo que cobria aquele rosto que eu já vira ter tantas cores. Tivesse eu o dom do traço, teria feito bela arte com aquele perfil alaranjado, mais familiar que o meu próprio, emoldurando a infinidade daquele mar tão antigo e romantizado. E, ao finir a obra, chamá-la-ia “Felicidade”, pois aquele momento, só nosso e do Egeu, não poderia ser melhor nominado. Uma lástima que meus desenhos sejam sempre essa pilha de palavras trôpegas e cheias das tais metáforas.
Piso numa poça de lama gelada e, em meio segundo, apaga-se meu quadro mental. Minhas pernas parecem gelatina, sobretudo para vencer o vento outonal, mas sigo pé ante pé numa marcha contrariada, absolutamente sozinha naquelas ruas largas e seculares. Ruas de mão única. Como de um precipício, eu não poderia voltar.
Inferno. Não deveria eu já ter me habituado a esse estranho “dom” de saber quando vou perder alguém? Pouparia o choque. Poderíamos ir direto para a parte que as lágrimas finalmente conseguem sair, em correnteza incessante como a que estava por vir.
Mas por hora, à meia-luz nessas ruas de cheiro maçante, o choque me prende a esses fantasmas mais vívidos que a realidade insalubre à minha volta. Meu nome, chamado de uma maneira doce como ninguém jamais chamara. Aquele abraço infinito que eu sentia tocar a alma. A cabeça no colo com a mão no cabelo, nosso gesto de proteção. Os braços carinhosamente entrelaçados. E, sobretudo, o calor da presença nos incontáveis fragmentos de tempo que eu aprendi a ver com mais cor, mais cheiro, mais vida. Vida essa que se descobrira ainda melhor enquanto compartilhada.
O vento me balança o capuz e eu piso em outra poça de lama. A rua continua vazia enquanto a lua se esconde atrás de incontáveis nuvens grafite, chorosas e cheias de você.
Não é mais verão, afinal. Tampouco para nós.

Paula Braga.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

À deriva

O sol me seca a boca
Quando a vista
Avista
Conhecida silhueta no mar.

Desliza vagarosa, fantasma na areia
Um sopro meu poderia repelir
Lança-se sorrateira figura na água
De onde bem longe deveria estar.

O conflito entre o desejo
De que fosse, e o medo
De que pudesse ser.
Na dúvida, esfreguei o olhar.

O corpo agora boiava
Inerte na vaga das ondas
Mas, sob aquele sol causticante
Era eu quem estava à deriva.

Mas, não mais
Prestes a com ela
Me afogar.

Paula Braga.

terça-feira, 24 de junho de 2014

Check-in


Deixa comigo o teu moletom
Esquece comigo, o meu preferido
Aquele, com teu cheirinho de banho recém tomado,
De cabelo lavado, de melhor cobertor.

Deixa, e não me deixa
Partir sem teu perdão
Mas, eu partindo, não me deixo esquecer
Os pedaços de ti que ficaram comigo.

Só... Volta
Me dá a sorte do último abraço ser teu
E me deixa prometer que o meu amor guardado
Também será o teu.

Paula Braga.

domingo, 6 de abril de 2014

Pelo Direito à Recidiva



Minha recaída tem um quê de coisa antiga, um par de lábios rosados e um ar de liberdade quase que vital. Engraçado como eu tenho paixão por quem tem essa necessidade urgente de sentir-se livre; talvez eu admire porque me falta. Talvez fosse exatamente você que me faltasse.
Eu constantemente me pego tentando entender como começou. Não sei se foi quando descobri seu coração “cego e peludo”, ou quando sua companhia tornou-se uma agradável constante, ou quando passei a correr para os seus braços quando o delírio me consumia, e em você encontrei afago e sensatez. O que preciso e o que me falta. Mas desconfio que foi sobretudo quando te descobri para além do que todos veem. Quando despi meu véu e desmontei sua armadura.
Eu me pergunto até hoje em que momento ou gesto eu mereci te ver.
Peguei-me, então, oferecendo-lhe uma lealdade silenciosa e voluntária, meu presente mais sincero, seu pedido mais secreto. Descobri em mim uma paciência totalmente inédita, e em você um companheirismo pouco reconhecido. Eu li nos seus gestos o quanto você precisava de tudo o que eu me dispus, de corpo e alma, a dar. Não tinha como não ser, também, de coração.
Coração esse que não quis mais ficar sem você, afinal. Se pensou, foi só para sentir a dor da ausência forte o suficiente para que recobrasse o fôlego e preferisse, sim, sentir-lhe perto mesmo sem poder ter. É a minha escolha, todos os dias, tal como foi minha escolha voltar aqui, depois de decidir não mais fazê-lo.
Eu também tinha decidido não mais me apaixonar.
Mas, por você, estou aqui.

Paula Braga.

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Derradeiro

Exatos três anos e dois meses. Mais de 11000 visualizações. 74 textos postados. Mais de 74 histórias nas entrelinhas. Infinitas emoções descritas. E duas paixões intensamente vividas nesses 1157 dias: pessoas e palavras. Essa é a minha Lua, que há tanto vem desenhando seus sentimentos despudoradamente nesse tão querido (e, a partir de hoje, saudoso) blog.
Esse é sobre um fim. Mais um. O próprio.
Algumas coisas simplesmente não são possíveis de serem descritas. As palavras, tão amadas, não são mais amigas. Na verdade, hoje eu temo o poder que elas exercem sobre mim, como se me mantivessem numa frequência de sentimentos acima do saudável. É ter que conviver com a própria cabeça lhe sabotando, repetindo incansavelmente aquilo que você gostaria de simplesmente não ter que sentir, tampouco ter que encarar através da palavra escrita.
Apesar de toda essa frequente turbulência de sentimentos, ainda assim, refleti bastante antes de decidir por efetivamente deixá-la, a Lua. Fosse porque ela também me fez muito feliz, ao me elevar emocionalmente através de suas palavras doces, fosse porque ela me consolou quando nem eu mesma entendia o que estava sentindo. Mas ela também se mostrou cruel pela sua sinceridade. O que me fez ver e sentir era, quando não maravilhosamente precioso, dolorosamente errado, e foi pelo desleal excesso destes que hoje eu lhe trago o último ponto final.
Perdão, Lua. Perdão por, depois desses anos todos, deixar-te. Que o silêncio não torne menos verdadeira cada palavra aqui guardada, e que a partida não te faça uma mágoa no coração daqueles para os quais você escreveu. Nós escrevemos. Eu escrevi. Que cada texto seja agora um testemunho de que não foi menos verídico só porque silenciou. Mas silenciou. E em silêncio permaneceremos, numa frequência menos intensa de narrar a vida. E de senti-la.
Deixo aqui o nosso último ponto final. O derradeiro choro da Lua.

Paula Braga. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

Mais Que O Mundo Inteiro


Dois olhares se procuram no tumulto, e num relance se encontram. Comunicam-se. Entendem-se. Dispensam palavras e se deleitam no fato de se pertencerem. De terem esquecido o que é solidão desde o primeiro instante em que um ao outro fizeram brilhar. Que conseguem se encontrar como for, onde for. Que sorte a minha, afinal, por um deles ser o meu.
É muito bonito quando se acha alguém pelo qual tudo, absolutamente tudo, vale a pena. Alguém que preenche o seu coração a ponto de lhe transbordar. Alguém que lhe deixa em euforia e, ao mesmo tempo, tem a capacidade de, com um só afago, acalmar-lhe. Alguém que você faz questão de incluir em tudo e apresentar a todos. Alguém que parece que sempre esteve ao seu lado. Alguém com quem se quer compartilhar a vida inteira. Alguém que lhe inspire. Alguém que lhe encoraje. Alguém que lhe aconselhe. Alguém que lhe ouça, sempre. Alguém capaz de congelar o tempo num só gesto. Alguém que lhe faça ver o quanto o mundo é grande. Alguém que lhe leve para vê-lo consigo. Alguém pelo qual se sinta um amor quase tangível. Alguém que sinta o mesmo, e não esconda isso.
Esse é para você. Mais um para você. Todo o amor pintado nas minhas palavras não poderia ser mais bonito senão para você. Quanto a mim, cá tenho um abraço dengoso esperando você se chegar de mansinho com o meu riso preferido. O riso de sempre. O riso mais bonito do mundo inteiro.

Paula Braga.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Corda-bamba


Encontrar alguém cuja loucura
lhe enlouqueça
É gostar da corda-bamba
tentadora
de se viciar.

E não sozinha.

Paula Braga.
(Feliz Aniversário, bloguinho <3)

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Poema na Estrada




 Cabeça pousada,
 Sopro no rosto,
 Mão no cabelo.

 Olhos cerrados,
 Ouvido apurado,
 Coração partido.

 Olho na estrada,
 Fone no ouvido,
 Mão no pulso.

 Lágrima no olho,
 Zumbido no ouvido,
 Mão na garganta.

 Até que ponto
 Duas mãos
 Salvam uma vida?

 Até que ponto
 Uma mão
 Pode tirá-la?


Paula Braga.